Liderança

Prudência: a arte de tomar boas decisões

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 9 de setembro de 2023
Prudência: a arte de tomar boas decisões
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Qualquer um que almeje liderar outras pessoas deve cultivar a prudência, virtude que permite tomar decisões acertadas e eficazes.

 O líder prudente consegue perceber a realidade, discernir o melhor caminho e escolher os meios adequados para realizá-lo.

 No artigo de hoje: prudência, a arte de tomar boas decisões.

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 A prudência é uma virtude mais ligada à razão prática do que ao saber teórico. A prudência, disse São Tomas de Aquino, é a regra certa da ação. Por isso, é uma virtude que está ligada ao processo de refletir, decidir e agir, e não à mera especulação teórica.

Vale ressaltar aqui que o discernimento da prudência visa sempre um bem moral e objetivo, sem o qual o exercício dessa virtude ficaria perdido em meio ao relativismo.

O discernimento da prudência tem um norte: a verdade e o bem.

O líder prudente, portanto, precisa desenvolver um sistema de valores capaz de reconhecer a qualidade moral de um ato concreto. Ou seja, saber identificar e seguir fielmente aquilo que é justo e correto.

É neste ponto que o líder deve se questionar: quanto do meu discernimento está pautado por valores genuínos e quanto está encoberto pelo nevoeiro do subjetivismo, do politicamente correto e das ideologias.

Um líder precisa almejar ser uma pessoa de critério. Uma pessoa de critério é aquela que adquiriu formação e lucidez suficientes para captar com facilidade o que está certo e o que está errado. Não apenas do ponto de vista moral, mas também das implicações práticas de suas escolhas.

É por isso que os filósofos clássicos consideravam a prudência como uma virtude moderadora das demais virtudes morais. A prudência ajuda a encontrar a medida das outras virtudes, evitando assim os extremos da insuficiência ou do exagero.

Vamos refletir um pouco sobre sabedoria que vem da prudência

Para decidir bem, os líderes devem conhecer em profundidade a atividade que dirigem. Este conhecimento está ligado aos aspectos técnicos, legais, financeiros e contextuais do seu ofício.

Devem conhecer também a natureza humana, já que os desafios da gestão estão muito mais ligados aos aspectos humanos.

Por exemplo, antes de tomar uma decisão, um executivo deverá saber se a equipe conta com pessoas capazes de implementá-la. Se uma decisão é teoricamente boa, mas as pessoas possuem talentos incompatíveis com o caminho escolhido, essa não terá sido uma decisão prudente.

Esse nível de julgamento vem do exercício da prudência e não de um olhar puramente técnico e teórico. Um modelo científico de tomada de decisões só pode funcionar quando o objeto da decisão é de natureza exclusivamente técnica.

Na esfera da liderança, modelos científicos podem estar facilmente condenados ao fracasso, se não levarem em consideração o fator humano.

Há muitos políticos e homens de negócios, vítimas de sua formação racionalista, que se baseiam com frequência em fórmulas e teorias abstratas para garantir o êxito das suas decisões. Uma tendência à “tomada científica de decisões” pode limitar a eficácia pessoal desses líderes e corroer a confiança dos seus liderados, pois frequentemente vai tropeçar nas nuances da natureza humana.

 Uma escolha prudente compõe-se de três etapas distintas:

  •  A deliberação, que consiste em obter as informações;
  •  O juízo, que consiste em avaliar essas informações; e
  •  A decisão, que é escolher entre as soluções alternativas.

Tratemos de cada uma dessas três etapas:

Primeira etapa: deliberação

 A deliberação é a reflexão que permite captar as nuances de cada variável que vai fundamentar a ação.

 Vou dar alguns conselhos práticos que podem ajudar a deliberar prudentemente.

Compilar os dados necessários e submetê-los a uma análise crítica. Convém avaliar a confiabilidade das fontes de informação e distinguir entre as opiniões embasadas e os achismos, entre os dados reais e os falsos.

Evitar a todo custo as racionalizações. Racionalizar é forçar os dados objetivos, consciente ou inconscientemente, para adaptá-los a noções pré-concebidas. Uma racionalização é um processo psicológico que deforma a realidade até que esta se adapte às paixões e aos interesses do decisor. Quando um líder cai na armadilha da racionalização, ele deixa de procurar soluções para seus problemas e passa a procurar problemas que se adaptem às suas soluções preconcebidas.

Não perder de vista a natureza da organização para qual se trabalha. Se você é diretor de uma escola primária ou de uma associação sem fins lucrativos, seria imprudente analisar as questões da mesma forma que o presidente de uma multinacional.

É preciso ser um bom gestor, mas não se deve perder de vista as peculiaridades do mercado em que a sua organização atua. Uma estratégia pode ser boa para um mercado e um equívoco se adotada em um contexto distinto. 

Não esquecer da missão da sua organização. As ações do dia a dia devem refletir o propósito da organização. Na pior das hipóteses, não deve contradizê-los. A missão deve orientar e dar sentido aos objetivos, nunca o contrário. Este é um critério fundamental para tomar decisões.

Uma missão sem objetivos é um exercício fútil. Mas também não faz sentido estabelecer objetivos que não estejam relacionados com a missão. A missão da empresa é a sua contribuição para o bem comum e não a sua capacidade de superar a concorrência.

Prever, na medida do possível, as consequências das suas ações. A raiz latina da palavra prudência vem de providência, que significa previsão. A prudência implica simultaneamente perspicácia, que é a visão da realidade tal como se apresenta; e previsão, que é a visão da realidade tal como espera-se que ela seja depois de entrar em ação.

Com frequência, os líderes andam como cegos, sem pensar em nada disso.

Todos nós já vivemos situações em que nos faltou a previsão mais elementar. Os resultados são algumas vezes cômicos, outras vezes trágicos. Quanto mais experiência o líder acumula, mais capacidade tem de prever as consequências dos próprios atos. Aqui, os cabelos brancos importam.

Finalmente, peça conselho. Prudente não é a pessoa que tem resposta para tudo, mas aquela que toma boas decisões. 

Um bom líder conhece seus limites e escolhe sócios, assessores e consultores capazes de complementar suas deficiências.

Não basta procurar aconselhamento técnico. Com frequência, devemos procurar o conselho de pessoas que nos conheçam e nos queiram bem.

Os líderes são livres para aceitar ou rejeitar os conselhos que recebem. Tomam decisões pessoais e respondem por elas pessoalmente. A responsabilidade é sempre do líder.

Segunda etapa: juízo

Julgar é avaliar os prós e os contras.

Os responsáveis por tomar decisões devem dedicar o tempo adequado para reunir os dados pertinentes para embasar da melhor forma possível a sua decisão.

Estes dados nem sempre serão os mais completos. As condições nem sempre serão as mais adequadas. No entanto, quando a decisão está tomada, os líderes devem agir com rapidez.

Ninguém aprende – diz Peter Drucker – senão cometendo erros. Quanto melhor é um homem, mais erros comete, porque mais coisas novas tratará de fazer. Eu nunca promoveria a um cargo diretivo uma pessoa que não tivesse cometido erros, e dos grandes. Se o fizesse, essa pessoa iria se comportar como um medíocre. Ou, o que é pior, por não ter cometido erros antes, não saberia detectá-los e corrigi-los a tempo.

Não se pode julgar a prudência de um líder baseando-se nos resultados de poucas decisões que ele tomou. Deve-se julgar a totalidade dos resultados obtidos durante a sua liderança.

Terceira etapa: decisão

Decidir é finalmente escolher entre as alternativas possíveis em um determinado contexto.

Decidir é estar determinado a agir. A decisão exige fazer, mesmo sabendo que os resultados não serão garantidos, que os imprevistos irão acontecer e que os planos iniciais serão adaptados ao longo do caminho.

O custo do medo e da hesitação é quase sempre maior do que o custo de se adaptar. A prudência requer audácia sem insensatez, esforço sem precipitação.

Concluindo

No centro da virtude da prudência encontra-se, portanto, a relação entre o caráter do líder e a sua capacidade de captar a realidade: em outras palavras, a relação entre o que somos e o que vemos.

A nossa capacidade de entender a realidade e tomar decisões prudentes depende do grau em que pratiquemos todas as demais virtudes.

Como observou Aristóteles, “o homem bom, julga cada coisa com retidão e capta em cada coisa a verdade”. O soberbo, pelo contrário, considera verdadeiro o que afaga o seu orgulho; o intemperante, o que lhe dá poder, dinheiro ou prazer; o pusilânime, o que justifica sua covardia ou sua preguiça”.

Entendemos e interpretamos os acontecimentos através do prisma do nosso caráter. Se reforçarmos o nosso caráter, ou seja, se desenvolvermos as nossas virtudes de modo geral, melhoraremos a nossa capacidade de entender e interpretar as situações à luz da razão.