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Investimentos Inteligentes 002 - O risco segundo Howard Marks

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 3 de julho de 2022
Investimentos Inteligentes 002 - O risco segundo Howard Marks
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Howard Marks é fundador da Oaktree Capital e considerado um dos maiores investidores em ativos de risco do mundo. Ao longo de mais de quatro décadas, Marks figurou entre os gestores que mais deram retorno aos seus investidores.

Os memorandos escritos por Howard Marks aos clientes da Oaktree são a melhor amostra de sua filosofia de investimento. Warren Buffett já declarou sobre as famosas cartas de Marks: “Quando vejo que há memorandos de Howard Marks em meu e-mail, eles são a primeira coisa que abro e leio. Eu sempre aprendo algo.”

No episódio de hoje, selecionei em suas cartas algumas lições sobre um tema central na vida de todo investidor: o risco.

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Investir consiste em uma coisa: dar atenção ao futuro E como nenhum de nós é capaz de ter certeza sobre os acontecimentos futuros, o risco acaba sendo inevitável; é o elemento essencial para a realização de investimentos.

Não é difícil definir ativos que têm potencial de alta. Caminhamos na direção correta quando encontramos um número suficiente desses investimentos. Mas é improvável que tenhamos êxito por muito tempo se não dermos atenção explícita ao risco. Entendê-lo configura o primeiro passo nesse sentido; o segundo é reconhecer quando há alto risco. O último passo importante é controlá-lo.

Para começar: quando um investidor deseja realizar uma determinada negociação, precisa fazer julgamentos sobre os seus riscos e entender se é capaz de conviver com eles.

Além de determinar sua capacidade de suportar a quantidade absoluta de riscos assumidos, o investidor precisa decidir se o rendimento de um determinado investimento justifica o risco assumido. Ou seja, o retorno conta apenas metade da história. Por isso, uma avaliação de risco é fundamental.

Os rendimentos foram obtidos com instrumentos seguros ou arriscados? Em outras palavras: é preciso avaliar o retorno ajustado ao risco.

Risco não é a mesma coisa que volatilidade. Há muitos tipos de risco; a volatilidade talvez seja o menos relevante de todos. A possibilidade de perder dinheiro de forma permanente é o risco de maior preocupação para mim.

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Os investidores de valor, pragmáticos que são, acreditam na possibilidade de obter um retorno alto e, ao mesmo tempo, manter o risco baixo ao comprar ativos por menos do que valem. Seguindo o mesmo raciocínio, pagar demais implica um retorno baixo e um risco alto.

O risco é enganoso. É fácil levar em conta as ponderações convencionais, como probabilidade de que eventos geralmente recorrentes se repitam. Porém, situações anômalas, aquelas que ocorrem apenas uma vez na vida, são muito difíceis de quantificar. O fato de um investimento estar sujeito a um risco particularmente grave que poderá ocorrer com frequência bastante baixa – Marks chama isso de desastre improvável – significa que o investimento pode parecer mais seguro do que realmente é. A questão central é que, analisando de forma prospectiva, grande parte do risco é subjetivo, oculto e impossível de medir.

Nesse contexto, os investidores competentes costumam ter apenas uma noção dos riscos presentes em determinada situação. Eles formam a opinião com base principalmente em dois fatores:

1 – a estabilidade e a confiabilidade do valor intrínseco do ativo;

2 – a relação, ou quociente, entre preço e valor.

Eles examinarão outros, mas a maior parte de sua opinião dependerá desses dois fatores.

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O próximo passo importante é descrever o processo pelo qual o risco pode ser reconhecido pelo que ele é.

Isso começa pelo entendimento daqueles momentos em que os investidores dão pouca atenção ao risco: otimistas pagam muito por um determinado ativo. Em outras palavras, o principal acompanhante do risco elevado é o preço elevado, seja de um ativo individual sobrevalorizado, seja de um mercado inteiro estimulado por um sentimento altista. A principal fonte de riscos é participar das negociações – em vez de afastar-se delas – quando os preços estão altos.

O investidor de valor acredita que o risco elevado e o retorno prospectivo baixo são apenas os dois lados de uma mesma moeda, ambos decorrentes principalmente dos preços altos. Desse modo, ter ciência da relação entre preço e valor – em relação a um único ativo ou a todo mercado – é componente essencial para lidar bem com o risco.

Assim como ocorre nas oportunidades de ganhar dinheiro, o grau de risco presente em um mercado, origina-se do comportamento dos participantes, e não dos ativos, das estratégias e das instituições. Independente de como as estruturas do mercado estejam construídas, o risco será baixo apenas se os investidores se comportarem com prudência. O mito da redução global dos riscos por conta da maior eficiência dos mercados é um dos mais perigosos e um dos principais fatores para a criação de bolhas. Os mercados somente oferecem prêmios de risco adequados, quando os investidores estão suficientemente avessos ao risco.

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A ausência de perdas não significa que a carteira tenha sido construída de forma segura. O importante aqui é a percepção de que talvez o risco estivesse presente, mesmo que a perda não tenha ocorrido. Marks propõe a metáfora de que “um bom construtor é capaz de evitar falhas em seu projeto, enquanto um construtor ruim incorpora as falhas na sua construção. Pode ser difícil diferenciar um do outro enquanto não há um terremoto.”

Se por um lado, o controle de riscos é essencial, a assunção de riscos, em si, não é nem sábia nem imprudente, mas inevitável na maior parte das estratégias e dos nichos de investimentos. Pode ser bem feita ou mal feita, no momento certo ou no momento errado. Nos resta garantir que os riscos e exposições sejam bem compreendidos, administrados de forma adequada e comunicados de modo transparente.

Isso não é aversão ao risco, é inteligência de risco.