Ética

O estoicismo de internet já pode acabar

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 2 de fevereiro de 2024
O estoicismo de internet já pode acabar
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O estoicismo virou moda. Em grande medida, devido a um marqueteiro digital chamado Ryan Holiday, que enxergou nesse filão uma forma de reinventar a própria carreira. Até aí nenhum problema, a não ser que outros marqueteiros digitais e influencers começaram a produzir versões cada vez mais diluídas e distantes do que os filósofos estoicos realmente disseram e que este conteúdo passou a ser reproduzido por um montão de gente que quer apenas parecer culta ao se autodenominar estoica.

Então, se você curte estoicismo, não custa ler o que os autores escreveram originalmente. Há muitos livros curtos e fáceis de ler, como as Meditações do imperador romano Marco Aurélio.

Dito isso, considero válido pontuar que o estoicismo tem três pressupostos que fazem dele uma corrente filosófica menor:

1 – Panteísmo. Deus é a natureza; composta de um princípio ativo, uma espécie de alma do mundo, e de um princípio passivo, a matéria.

Há um certo determinismo cosmológico no discurso estoico e, portanto, moral. O ideal de sabedoria estoica é reconhecer e aceitar esse destino pré-determinado. Já o ideal de liberdade é uma espécie de apatia (termo que, inclusive, vem deles) consciente diante da realidade.

2 – Para os estoicos as virtudes são parte de um todo. Quem possui uma virtude, possui todas. Quem não possui uma delas, não possui nenhuma. Uma vida virtuosa é, portanto, tarefa para alguns poucos iluminados, que geralmente alcançam esse patamar apenas no final da vida. Ou seja, nossa luta diária para corrigir defeitos e desenvolver hábitos mais elevados seria uma batalha ingrata e pouco recompensadora.

3 – Ética individualista. Após as conquistas de Alexandre, O Grande, e, posteriormente, do advento do Império Romano, os filósofos se depararam com o problema da globalização. A nova realidade cosmopolita fez com que eles se voltassem para as questões éticas a partir de um ponto de vista individual. O ideal grego de cidadania tornou-se impossível nos impérios multiculturais que se formaram após a Grécia clássica. Ou seja, muitas conclusões dos estoicos são resultado de um processo histórico que empobreceu a filosofia durante alguns séculos.

Embora alguns autores estoicos, com destaque para os romanos Sêneca e Marco Aurélio, sejam ótimos conselheiros práticos, em tudo a ética grega (Platão e Aristóteles) e cristã (sobretudo após Santo Agostinho e São Tomás de Aquino) é superior.

Diante dos gregos e cristãos, os estoicos parecem crianças tateando no escuro.

Esse estoicismo pop acalenta a alma de dois tipos muito comuns na sociedade atual: o relativista ateu, que se recusa a considerar a hipótese da existência de Deus e todos os desdobramentos que isso acarretará em sua própria biografia; e o jovem desocupado, que quer arranjar um motivo nobre para sua falta de atitude diante dos chamados da vida.

Pode ser algo difícil de constatar, mas nossas avós, que não leram nenhum desses autores que eu citei, mas não deixavam de ir à Missa, eram mais sábias e estavam mais próximas da Verdade do que os “estoicos do século 21”.

Acredite, qualquer conselho sobre ética que você escutar na paróquia mais próxima da sua casa terá mais profundidade filosófica, porque apoiado em uma tradição mais consistente e profunda, do que toda bobagem pseudoestoica que aparece na sua timeline.

O estoicismo de internet é uma moda que já poderia ter acabado.